Asas da Eficiência

A Revolução que Sobrevoa o Norte de Goiás

ECONOMIA REGIONAL

Godofredo Costa

5/16/202610 min read

O ronco dos motores que dão ritmo ao amanhecer no nosso “nortão goiano” agora divide espaço com um novo compasso tecnológico. Em uma fazenda nos arredores de Uruaçu, em meio ao verde vivo e denso da lavoura em pleno desenvolvimento, o zumbido agudo que corta o ar anuncia uma operação de alta precisão.

A cerca de 30 metros do solo, uma aeronave não tripulada rasga o céu do cerrado. O que antes demandava dias inteiros de exaustiva caminhada sob o sol escaldante, com técnicos tentando identificar pragas a olho nu entre as linhas de plantio, agora é mapeado e solucionado em minutos por lentes de alta definição e sensores de última geração.

O futuro do agro regional não bate mais à porteira, ele sobrevoa a safra. Não se trata mais de um cenário de ficção científica ou de experimentos isolados, mas da nova realidade que redesenha a rotina do produtor goiano. Onde o olhar humano, exausto pela lida, enxergava apenas o verde uniforme da plantação, os sensores multiespectrais revelam manchas invisíveis de estresse hídrico, focos incipientes de pragas e falhas microscópicas de plantio.

Se ignorados, esses detalhes corroeriam a margem de lucro ao fim da safra. Na região que se consolida como o coração logístico e produtivo do estado, a tecnologia de precisão deixou as prateleiras de artigos de luxo para se transformar na ferramenta de sobrevivência de quem busca eficiência no "Agro 4.0".

Do Campo para a Tecnologia: O Protagonismo de Pedro Henrique

Para o agricultor Pedro Henrique Pereira, a modernidade nunca foi um conceito abstrato de simpósios agrícolas, mas sim uma ferramenta de trabalho diária que ele maneja há quatro safras consecutivas. Com a responsabilidade de tocar 500 hectares de área em Uruaçu (GO) e outros 800 hectares no município vizinho de Niquelândia (GO), Pedro cultiva uma tríade forte para a economia regional: soja, milho e sorgo. O salto tecnológico em suas propriedades veio com a aquisição de um drone próprio, o robusto DJI T40.

O investimento foi feito com um objetivo claro: adequar-se à modernidade e absorver a tecnologia que batia às portas do campo. O que Pedro não imaginava é que o equipamento transformaria o próprio perfil do seu negócio de maneira tão radical. Hoje, apenas 30% do tempo de uso do drone é dedicado às suas lavouras particulares. Os outros 70% da agenda da aeronave são ocupados pela prestação de serviços para outros agricultores da região, que enxergaram na terceirização uma saída rápida para suas dores operacionais. "Os equipamentos não param. Temos serviço agendado todas as semanas do ano", revela Pedro Henrique.

A tecnologia não apenas melhorou a produtividade das lavouras existentes, mas fundou um mercado de serviços tecnológicos completamente novo na região, gerando receita e movimentando a economia periférica dos municípios.

A estratégia logística, custos invisíveis e a sucessão no campo

Se para Pedro Henrique o drone se tornou uma unidade de negócios secundária, para o produtor Pablo Bonifácio a tecnologia surgiu como uma solução logística e financeira de alto impacto estratégico. Pablo gerencia quatro fazendas estrategicamente posicionadas: duas localizadas em Alto Horizonte (GO) e duas em uma região próxima, cruzando a divisa, já no estado do Tocantins. No Norte de Goiás, sua operação é complexa e diversificada, explorando a agricultura consorciada à pecuária, onde cultiva soja, milho, sorgo e, dependendo das condições climáticas da janela, também o milheto.

O grande gargalo de Pablo era a mobilidade. Ele possui um parque de maquinário pesado moderno e eficiente para realizar os serviços nas fazendas goianas. No entanto, deslocar esses equipamentos por centenas de quilômetros, até as propriedades do Tocantins, gera um custo logístico proibitivo, além do desgaste dos equipamentos e do risco do transporte de carga pesada.

A virada de chave ocorreu quando ele optou pela contratação de serviços de drones para realizar a semeadura de pasto e o combate a ervas daninhas nas terras tocantinenses. "Fica infinitamente mais barato do que deslocar o maquinário pesado entre os estados", afirma Pablo. A experiência prática foi tão avassaladora que ele decidiu que é hora de dar o próximo passo: consolidar uma estrutura própria. Atualmente, o produtor analisa o mercado para avaliar qual equipamento atende melhor à sua demanda multimodal.

No rastro dessa migração para o digital, outro fator de peso empurra o produtor goiano para os céus: o apagão de mão de obra tradicional. O pecuarista Almir Marques, que administra fazendas em Uruaçu e Campinaçu (GO), vive essa realidade na pele ao lado do filho Raphael Marques, a quem está preparando para suceder o comando dos negócios da família. Almir confessa que ainda não adotou os drones nas pastagens de suas propriedades, mas o planejamento para a aquisição já está na mesa de decisões.

Para Almir, a tecnologia não é mais uma escolha, mas a única saída viável para garantir a continuidade do patrimônio e a transição geracional. "A mão de obra convencional e qualificada para manter uma fazenda pelos meios tradicionais está ficando cada vez mais escassa na nossa região. A saída inevitável para não fechar as portas é fugir para a tecnologia", desabafa o pecuarista.

Contudo, Almir mantém os pés no chão e levanta um ponto de debate ambiental crucial e que exige responsabilidade técnica: a convivência do drone com o bioma nativo. A grande preocupação do pecuarista está nas áreas de pastagem que possuem grande densidade de árvores remanescentes do cerrado. A pulverização por drone nesses locais exige perícia extrema, já que o vento gerado pelas hélices (downwash) e a dispersão das gotas em áreas com barreiras arbóreas podem comprometer espécies nativas que ele faz questão de preservar. É o desafio de alinhar a pressa da tecnologia com o tempo e a conservação da natureza.

O Mercado de Provedores e o Embate Técnico das Gigantes: DJI ou XAG?

O crescimento exponencial dessa demanda transformou a região em um terreno disputado palmo a palmo pelas grandes bandeiras do mercado de maquinário agrícola mundial. Redes de concessionárias tradicionais, que antes focavam exclusivamente em tratores de alta potência e colheitadeiras milionárias, tiveram que se adaptar rapidamente para não perder relevância.

É o caso relatado por Luan Costa, gerente da unidade da Pivot Case em Uruaçu. A empresa, tradicional fornecedora de soluções para o campo, fechou parceria com a fabricante chinesa XAG, uma das maiores potências globais do setor. Essa aliança estratégica permitiu que grandes redes de concessionárias incorporassem os drones diretamente em sua linha de frente de vendas, oferecendo algo que o produtor rural goiano coloca no topo de suas exigências: uma estrutura robusta de assistência técnica local e pós-venda.

Luan traz uma visão realista e de equilíbrio sobre o futuro das frotas. Ele defende que, embora os drones tenham conquistado um território impressionante, eles não chegaram para anular ou substituir por completo os equipamentos tradicionais da fazenda, como os robustos pulverizadores autopropelidos que operam em grandes e planas extensões de terra.

"O drone é o parceiro de precisão ideal para janelas apertadas, áreas acidentadas, perímetros menores ou locais onde o solo está excessivamente encharcado pelas chuvas, impedindo a entrada das máquinas de pneu. Eles ajudam onde o pesado não chega, atuando de forma perfeitamente complementar", explica Luan Costa.

Essa visão de que o drone faz parte de um ecossistema maior é endossada por Fernando Chaves, coordenador técnico de vendas da Irriplan, outra tradicional empresa da região que também apostou fichas no potencial de mercado dos produtos XAG. Fernando destaca que, quando analisamos com atenção as opções de ponta do mercado atual, os equipamentos de primeira linha são muito equivalentes em termos de entrega tecnológica e preço final de prateleira.

O grande diferencial que altera substancialmente o tamanho de um orçamento e que frequentemente pega o produtor desavisado de surpresa, segundo Fernando, é a configuração periférica da compra. "O produtor não está comprando apenas uma aeronave. Ele está adquirindo um verdadeiro ecossistema operacional. Para garantir autonomia de verdade no meio do nada, que é a realidade das nossas fazendas distantes dos centros urbanos, o projeto exige um pacote pesado de baterias extras de recarga rápida, estações de resfriamento, carregadores industriais e, obrigatoriamente, um gerador de energia a diesel ou gasolina de alta potência. Sem essa estrutura de retaguarda, o drone vira um investimento estático na carroceria da caminhonete", alerta o técnico da Irriplan.

Do outro lado do balcão de análises, o especialista Muryllo Novato Duarte traz para a reportagem a bagagem de quem viu esse mercado nascer. Formado em Tecnologia da Informação e especializado em gestão do agronegócio, Muryllo dedica sua vida profissional aos drones há pelo menos 13 anos, figurando como um dos pioneiros absolutos em projetos ligados à aplicação de geotecnologias no campo em Goiás.

Hoje, estabelecido como empresário do setor, com sede em Campinorte (GO), ele atua não apenas na pulverização e semeadura, mas foca o núcleo de sua empresa em atividades secundárias de altíssimo valor agregado: o levantamento aéreo de precisão, o imageamento de safras, a identificação matemática de falhas de plantio e o monitoramento fino de pastagens.

Para alcançar o nível de detalhamento exigido por seus clientes, Muryllo utiliza equipamentos com características muito específicas, longe dos tradicionais quadricópteros. Ele opera principalmente com VANTs (Veículos Aéreos Não Tripulados) de asa fixa, que se assemelham a pequenos aviões e possuem autonomia de voo muito superior, carregando lentes e câmeras multiespectrais calibradas para ler até os índices de clorofila da planta.

Quando questionado sobre o mercado de pulverização e semeadura pesada, Muryllo traz uma avaliação técnica contundente que contrasta com o mercado da região. Para ele, a tomada de decisão do produtor deve olhar além da oferta comercial imediata de balcão.

Ele aponta que os modelos da fabricante DJI (como o T40 operado por Pedro Henrique) detêm uma liderança global consolidada por motivos práticos. "São equipamentos extremamente confiáveis no trabalho severo do dia a dia, com uma capacidade de produtividade por hora superior e, acima de tudo, uma facilidade de manutenção mecânica e eletrônica que protege o produtor de ficar com a máquina parada no momento mais crítico da safra", avalia o especialista.

O embate técnico entre DJI e XAG desenha o mapa do poder tecnológico no campo, onde ambas as marcas consolidam-se como as líderes absolutas do setor, dominando uma fatia estimada entre 80% e 90% dos mercados brasileiro e global.

Trata-se de uma competição de altíssimo nível. Enquanto a DJI se destaca historicamente pela robustez estrutural de suas aeronaves e pela imensa capilaridade de sua rede de revendas e peças, a XAG responde na fronteira da inovação com sistemas de automação extrema que dispensam quase totalmente a interferência humana e um conceito de design modular que facilita reparos rápidos.

Ao decidir qual caminho seguir, o produtor deve colocar na balança fatores que vão muito além do preço do panfleto: a proximidade real do suporte técnico local, o custo de reposição de componentes essenciais e o preço dos pacotes de baterias. Afinal, no xadrez do agronegócio moderno, a melhor tecnologia é aquela que encontra suporte rápido quando a máquina está no campo.

Formação, segurança e qualificação: o caminho pelo SENAR

Toda essa sofisticação tecnológica e a circulação de aeronaves que chegam a pesar mais de 90 kg quando totalmente carregadas trazem à tona uma necessidade urgente: a regulamentação e a qualificação profissional de quem aperta os botões. Pilotar um drone agrícola não é um jogo de videogame; exige conhecimento de meteorologia, calibração de bicos, velocidade de vento, mistura de caldas e legislação da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil).

É um gargalo já observado pelo sistema sindical que apoia os agropecuaristas. Letícia Aurélio, Coordenadora do Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) no Norte de Goiás, explica que a instituição desempenha um papel de infraestrutura social vital ao fornecer, de forma totalmente gratuita, os cursos técnicos necessários para a formação e certificação de novos pilotos operacionais de drones na região.

A qualificação não apenas abre as portas para que jovens locais permaneçam trabalhando no campo com salários valorizados de nível técnico, mas também garante que os investimentos de produtores como Pedro Henrique e Pablo Bonifácio sejam operados com segurança, evitando acidentes e quebras por imperícia.

Letícia orienta que os produtores, trabalhadores rurais e jovens interessados em ingressar nessa carreira acompanhem de perto a abertura de novas turmas e o calendário detalhado de treinamentos oferecido pelo órgão para toda a região Norte. "Todas as informações de vagas e datas estão permanentemente disponíveis e atualizadas no site oficial da FAEG (Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás), bastando ao usuário acessar o menu Educação", detalha a coordenadora.

O horizonte do Norte de Goiás aponta para um caminho sem volta de integração absoluta entre a terra, a pecuária e a nuvem de dados. Como mostram, cada um à sua maneira, os caminhos cruzados de Pedro Henrique, Pablo, Almir, Muryllo, Luan e Fernando, as porteiras da região cederam definitivamente ao avanço tecnológico.

No fim do dia, quando o sol se põe no nosso horizonte e as aeronaves retornam para suas bases de recarga, fica a certeza de que o zumbido agudo das hélices que corta as plantações de soja e milho é, na verdade, o som da engrenagem do progresso.

O Norte Goiano aprendeu a erguer os olhos e a olhar para cima para garantir que suas raízes continuem crescendo fortes, produtivas e sustentáveis no chão.

Pedro Henrique Pereira e o seu DJI T40. Quatro safras de experiência com o uso de drones.

Almir e Raphael Marques: sucessão em meio ao avanço tecnológico.

Luan Costa: "Drones vieram para complementar, mas equipamentos tradicionais ainda possuem seu espaço".

Fernando Chaves e o XAG P150. À pronta entrega na Irriplan.

Muryllo e seu XMobots, com sensores multiespectrais capazes (por exemplo) de identificar pragas ainda antes das folhas denunciarem uma doença.

Letícia Aurélio, Coordenadora Regional do SENAR.